Crítica | Os Inconfidentes (1972), de Joaquim Pedro de Andrade
- Rafael Ramagem
- há 18 horas
- 3 min de leitura
O filme de Joaquim Pedro de Andrade expõe as contradições históricas e revela um brasil cego em sua própria farsa.

Escrevo esta crítica após montar uma curta chamada em vídeo para o cineclube do qual participo. Como de costume nesse tipo de publicidade, tentei dar ao filme outro caráter — mais excitante, cômico, romântico — que chamasse o público ao cinema. Porém, percebi que, em seu todo, o filme de Joaquim já se estruturava dessa maneira, e meu trabalho se tornou óbvio.
Para além da irreverência à história oficial e ao período em que o filme foi gravado, da ressignificação dos mitos da Inconfidência Mineira — que aqui se apresentam como homens mesquinhos e infantilizados, os líderes corruptos do cinema novo, como os de Glauber —, é, em sua abordagem, dinâmico, mesmo em seu texto erudito, em como constrói a mise-en-scène e a mise-en-place dos atores que a tudo exprimem. Os aristocratas se movimentam e performam com pouca verossimilhança, mantendo-se, na primeira metade cronológica do filme (que utiliza montagem paralela em toda sua duração), em poszição de grandeza diante do quadro, enquanto a câmera se movimenta com precisão, acompanhando suas performances em frente ao espectador.
Proclamam suas mentiras e verdades encobertas com poesia — algumas usadas por Joaquim no desenvolvimento do roteiro —, eloquência e em latim. As quebras brechtianas da quarta parede às vezes utilizam o humor em sua assíncronia para criticar as ditaduras do então presente e do passado colonial, como na música de Ary Barroso, “Brasil, pra mim, pra mim, Brasil”, ou na imagem titular de um pedaço de carne rodeado de moscas. Na verdade, o filme todo é brechtiano, o filme todo é metáfora — e pouco se esforça para encobrir isso.
A narrativa contada aqui é simples e já muitas vezes reproduzida, seja na história, seja na ficção. É um filme simples. Homens travam a independência de um país e, como em uma tragédia, são traídos por seus aliados, o que culmina em delações generalizadas e torturas em masmorras escuras. Reconhecem? Todos os revolucionários, com exceção de Tiradentes, se rebaixam à Coroa, pois acreditam na misericórdia do Estado. Em atos de coragem, Joaquim Pedro de Andrade decide revelar as contradições desse Brasil — um Brasil de uma esquerda despolitizada e tola, míope em seu conforto.
Ele escolhe não esconder que o herói da Inconfidência Mineira era um escravocrata. E é muito feliz em manter a cena em que Tiradentes decide vender um homem escravizado, desprovida de drama, sem muito peso na construção narrativa, curta, mas que muito funciona ao, após a partida de Tiradentes, a câmera ainda acompanhar o escravizado, curvado, colocando suas vestimentas. A mulher negra, como também foi muito no cinema, é sexualizada, e o homem negro diminuído a burro de carga. Nada disso, nem mesmo a cena em que Tiradentes é poeticamente enforcado por seu carrasco — um homem negro —, leva a trama adiante. São cenas, em sua maioria, comuns, sempre em plano de fundo às demais ações, que são essas mais importantes para os personagens, alheios e complacentes a essa barbárie.
Na cena final, entendendo o contexto em que o filme foi feito — e não falo de sua crítica à ditadura, que seria impossível ser mais óbvia —, escrevo com surpresa, pois o filme conseguiu não ser censurado no período mais duro da ditadura militar. Foi exibido normalmente por justamente incluir a cena final ao som de “Aquarela do Brasil”. A cena em que, logo após o assassinato brutal de Tiradentes, vemos militares celebrando esse mesmo dia, em preto e branco, justaposta a imagens de carne recebendo pauladas. Um atestado ao sucesso do filme de Joaquim Pedro de Andrade e ao surpreendente iletramento artístico da censura e de seus agentes.
Nota do crítico:

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