Crítica | Notícias de Casa (1977): O que não se conta à mãe em cartas
- Giulia Dela Pace
- há 4 dias
- 3 min de leitura
Chantal Akerman gosta de se metamorfosear num íntimo espelho para o público.

Notícias de casa (1977), passado na Mostra Chantal Akerman no Cine Brasília este mês, talvez tenha se tornado um dos meus filmes favoritos. Com aspecto de filme caseiro – mas planejado até os dentes –, bem menos narrativo que seu primeiro longa Jeanne Dielman (1975) e o mais experimental de sua filmografia até então. Neste documentário, Akerman retrata a saudade, a confusão, as incertezas e os sentimentos tão específicos de nós, mulheres de vinte e poucos anos, o que torna um desafio assisti-lo sem segurar o choro por uma hora e poucos minutos.
E é nesse minimalismo narrativo que nos encontramos e também onde a montagem das cenas se torna mais coesa. Entre cartas aflitas e cenas de uma cidade inquieta, a montagem é uma colagem da impaciência ao mesmo tempo o desejo de observar e a curiosidade em conhecer o que há de novo no ambiente, o filme é Chantal Akerman. Mas também é sua mãe, pois a narração das cartas de Natália Akerman – feita por Chantal – é a tradução da pressão constante de sua mãe em seu fluxo de pensamento, sobrepostos pelos cenários e vice e versa. É aquela constante voz de mãe ansiosa que aos poucos também se torna a sua, enquanto você se torna sua mãe.
E é possível perceber essa tradução de si em outras obras da cineasta, pois muito embora tenhamos acompanhado em 1975 a deprimente rotina de Jeanne Dielman, há um humor macabro na impaciência da personagem e em seu ato final – ao apunhalar com uma tesoura seu último cliente. E o mesmo tom de humor em Saute Ma Ville, 1968, curta completamente construído a base duma comicidade ansiosa e destrutiva da garota, interpretada pela própria diretora.
Ainda, Chantal ainda registra, enquanto ouvimos suas notícias de casa, um personagem corriqueiro das décadas de 1970 e 1980, como vemos em Taxi Driver (1976), After Hours (1985), Hi, Mom (1970), Born in Flames (1983), etc: a Nova Iorque craquelenta, suja e feroz. Com momentos que despertam curiosidade ou riso aqui e ali, mas que em grande parte do tempo nos deixa atentos sobre algum acontecimento violento iminente a cada esquina, algo que Nelly – mãe de Chantal – também deve ter intuído à época.
Ainda sobre Nova Iorque, ressalto a cena final, onde Chantal expõe a cidade fantasma desaparecendo na neblina. Uma cidade-personagem que envelheceu com outro significado, ainda que com um mesmo véu espectral da violência. A imagem não é apenas a de uma lembrança afastada, mas para a diretora as Torres Gêmeas protuberantes talvez representassem um horror: dois gigantes símbolos da esmagadora presença capitalista em uma das mais conhecidas metrópoles mundiais. E para mim, uma criança dos anos 2000, que não conheceu o World Trade Center como outra coisa senão os prédios do ataque de onze de setembro, a imagem faz relação imediata com o acidente de 2001.

Mas voltemos ao mais importante: a parcela íntima e confessional do filme, pois enquanto NY é mostrada como uma ameaça constante, a cidade de Bruxelas é descrita por Nelly quase como um vilarejo. Uma cidade feita por pessoas e as relações entre elas e não por máquinas e presença humana inferiormente proporcional. Enquanto sua mãe descreve a cidade natal por pessoas, Chantal nos mostra sua vida, sensações e sentimentos não verbalizados através da cidade, a metrópole-fantasma utópica.
Há algo nesse filme, que para mim é muito caro: a eternidade do filme. Não importa o quanto Chantal descreva sua mãe através das cartas, a mãe de alguém sempre será a de chantal – como é a minha –, o que quero dizer aqui é que Akerman fez – como alguns poucos cineastas – algo muito bonito: se metamorfosear num espelho íntimo para o público.
Nota do crítico:

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