Crítica | A Máquina (2025), de Guilherme Pereira e Isabela Litaiff
- Júlio Oliveira
- há 19 horas
- 3 min de leitura
O registro fotográfico como captura da alma é o tema central do metalinguístico "A Máquina".

Nos primeiros minutos de A Máquina (Guilherme Pereira e Isabela Litaiff), a protagonista olha através de duas telas diferentes: a do computador e a do celular. Nós, por outro lado, a observamos através da câmera. Existe uma tensão natural que surge dessa relação dupla do olhar: a personagem observa algo e, da mesma forma, é observada. Essa tensão é o eixo que une todos os elementos do curta, que bebe de fontes que vão desde o cinema mudo até a fantasia do cotidiano de M. Night Shyamalan. Com uma câmera quase sempre fixa e que se aproxima da ideia de câmera de vigilância apontada por Paul Schrader em O Estilo Transcendental no Cinema, o filme utiliza o espaço (a princípio doméstico e, posteriormente, urbano) como laboratório dessa tensão crescente, apoiando-se na montagem como uma força catalisadora do conflito que irá surgir.
É interessante que essa ideia de vigilância não surge do nada. A gênese apresentada por Pereira e Litaiff se dá numa abordagem clássica e objetiva da imagem, numa montagem que constroi uma relação de olhar, desejo e ação. Um exemplo claro é percebido no ponto de ruptura da normalidade do filme: a personagem percebe uma câmera abandonada na praça (olhar), encara o objeto e até chega a manuseá-lo (desejo), até que decide tomá-lo para si (ação). Essa tríade não existe por acaso, dialogando diretamente com a tensão de observar ao mesmo tempo em que se é observado.
Com a personagem cada vez mais sendo colocada no centro do plano, ela passa a encarar a câmera (nós) com a câmera diegética que ela tem em mãos, elevando a tensão a um ponto que se aproxima da própria ruptura da tão falada quarta parede. Entretanto, é na noção de que ela é a personagem observada - e a quarta parede é mais um espelho que qualquer outra coisa - que o filme se aproxima dessa fantasia metalinguística que não se preocupa com explicações, mas na experiência sensorial vivida pela personagem, que inevitavelmente acaba se manifestando no espectador.
É, antes de tudo, elegante. Existe uma verdadeira fé na imagem, tanto que o filme não conta com falas audíveis, confiando em tudo que é mostrado para construir sua lógica narrativa. Mais do que isso, encontra uma verdadeira força na montagem a partir de tarefas cotidianas (como esquentar o leite no fogão) para potencializar as emoções vividas pela protagonista tão bem interpretada por Camilla Del Negri. Até por não poder usar as palavras como instrumento, a atriz acaba sendo essa espécie de modelo de emoções, em que o rosto e corpo comunicam mais do que qualquer palavra poderia.
O mais interessante é que todas essas referências - o cinema mudo clássico, a fantasia de Shyamalan, o voyeurismo de Hitchcock e o rosto Balázsiano como veículo de emoções - não soam gratuitas ou jogadas. Na verdade, partindo de sua natureza metalinguística, o filme encontra um equilíbrio muito orgânico entre seus elementos e suas inserções progressivas, criando uma tensão que se amplia até o estopim da última cena em todo e qualquer conceito pode ser testemunhado pelos próprios olhos. O conflito de observador/observado se converte em imagem, numa espécie de espelho que paradoxalmente separa e une o clímax e o catalisador da obra.
A Máquina é uma dessas excelentes surpresas do cinema brasileiro. É uma produção como tantas outras, contando com artistas jovens e com recursos limitados, mas tendo um olhar cinéfilo (no melhor dos sentidos) e um conhecimento profundo dos elementos da linguagem que potencializa todas as suas qualidades. É um verdadeiro deleite, sendo um daqueles filmes que te faz ter vontade de sair por aí filmando tudo. Ou talvez sendo filmado.
Nota do crítico:

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